O franchising brasileiro vive um momento de forte expansão e consolidação econômica. Os números impressionam, mas, por trás do crescimento acelerado, surge um alerta importante: expandir sem ética, governança e estrutura adequada pode comprometer não apenas redes individuais, mas a credibilidade de todo o sistema.
Segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o setor faturou R$ 273 bilhões em 2024, registrando crescimento de 13,5% em relação a 2023, que já havia avançado 13,8% frente a 2022. Apesar do desempenho positivo, o índice de fechamento de unidades aumentou no mesmo período, passando de 5,9% para 6,4%.
Expansão acelerada e riscos estruturais
O contraste entre crescimento e encerramento de operações revela um problema recorrente no franchising: a pressa em escalar sem a devida preparação. Levantamento da consultoria Rizzo Franchise aponta que cerca de 93% das franquias brasileiras encerram suas atividades em até dois anos de operação.
Entre os principais fatores estão a abertura desenfreada de unidades sem suporte adequado, falhas na seleção de franqueados e decisões equivocadas na escolha de pontos comerciais. Esses erros afetam diretamente a rentabilidade das unidades e, em efeito cascata, fragilizam a imagem da marca e do próprio modelo de franquias.
O ciclo da promessa e da frustração
Periodicamente, surgem redes que despertam grande expectativa ao anunciar planos de expansão agressivos. Muitas vendem dezenas ou centenas de franquias em curto espaço de tempo, mas não conseguem sustentar a operação. O resultado são unidades que fecham precocemente — ou sequer chegam a ser inauguradas — deixando prejuízos significativos para investidores atraídos por promessas de retornos rápidos e garantidos.
Esse fenômeno não se restringe ao Brasil. Consultorias internacionais relatam situações semelhantes em mercados maduros do franchising. Nos Estados Unidos e na Europa, onde a legislação é mais rigorosa, práticas de expansão irresponsável podem levar empresas ao fechamento compulsório.
Um dos casos mais emblemáticos foi o da rede norte-americana Burgerim, que expandiu para mais de 200 unidades entre 2016 e 2019, mas entrou em colapso após atrair franqueados com projeções irreais de lucro e subestimação de custos, gerando ações judiciais e prejuízos milionários.
Casos brasileiros e impactos no setor
No Brasil, algumas redes chegaram a ultrapassar a marca de mil unidades antes de desaparecer do mercado, como ocorreu com a Nipomed. Embora existam marcas que consigam corrigir a rota por meio do fechamento de unidades e reforço da estrutura, muitos franqueados enfrentam perdas irreversíveis de capital e tempo, além do desgaste emocional.
Esses episódios comprometem a confiança do investidor e acabam manchando a reputação do franchising como um todo, apesar de se tratarem de exceções dentro de um sistema sólido quando bem conduzido.
Governança, transparência e responsabilidade
Outro ponto sensível está na governança. Nem todos os franqueadores cumprem integralmente as exigências da Circular de Oferta de Franquia (COF), especialmente no que diz respeito à divulgação da lista de ex-franqueados que encerraram ou transferiram unidades nos últimos 24 meses.
A ausência de transparência nesse processo expõe investidores a riscos desnecessários e enfraquece os mecanismos de autorregulação do setor. Especialistas defendem que a fiscalização e o cumprimento rigoroso da legislação são fundamentais para preservar a saúde do franchising.
Crescimento em etapas como estratégia de sustentabilidade
A expansão sustentável exige planejamento e maturidade operacional. Modelos de crescimento em etapas, com períodos de consolidação antes de novas aberturas, tendem a ser mais seguros do que estratégias pautadas apenas pela velocidade.
Crescer rápido demais compromete treinamento, logística, fornecimento e suporte ao franqueado, criando um efeito dominó de falhas operacionais. Redes que possuem processos maduros, governança sólida e estrutura de suporte consistente conseguem absorver novos franqueados sem comprometer a qualidade da operação — mas esses casos ainda são minoria.
O equilíbrio que sustenta o franchising
Por essência, o franchising é um modelo baseado em escala. Crescer é necessário para manter competitividade, diluir custos e fortalecer a marca. No entanto, tanto a expansão acelerada sem estrutura quanto o crescimento lento demais representam riscos.
O equilíbrio entre ritmo, ética e planejamento é o caminho para uma expansão segura e duradoura. Consolidar a operação passo a passo protege franqueados, preserva a reputação das marcas e fortalece a confiança do mercado — pilares indispensáveis para o futuro do franchising brasileiro.
Artigo de opinião
Por Paulo C. Mauro, CEO da Global Franchise
Paulo C. Mauro é um dos pioneiros do franchising no Brasil. Sua empresa, a Global Franchise, mantém escritórios no Brasil e nos Estados Unidos e atua em parceria com grandes grupos de consultoria em mais de 60 países. É autor de quatro livros sobre franchising, entre eles O Franchising do Futuro / O Futuro do Franchising, publicado em português, inglês, francês e espanhol.














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